Venturis venti

Candangos e o Panteão da Pátria, monumento à liberdade e à democracia. Símbolos a serem reverenciados de forma reflexiva no 21 de abril.
Candangos e o Panteão da Pátria, monumento à liberdade e à democracia.
símbolos a serem reverenciados de forma reflexiva no 21 de abril.

O lema de Brasília, aniversariante do dia, é “Aos ventos vindouros”.  E que bons ventos nos refresquem e nos  animem sempre nessa cidade tão maltratada. Do latim também vem o lema da conjuração mineira que adaptado de Virgílio virou Liberdade antes que tardia. Ambos lemas tem em comum uma curiosa incompletude, como se seus criadores implorassem as futuras gerações o complemento adequado. “Et quæ tanta fuit Romam tibi causa videndi?”
Libertas, quæ sera tamen, respexit inertem,
(Candidior postquam tondenti barba cadebat,
Respexit tamen et longo post tempore venit,
Postquam nos Amaryllis habet, Galatea reliquit.”
“E qual foi o forte motivo para visitares Roma?”
Liberdade que me viu ocioso, embora tarde, Quando a barba, que fazia, já caía mais branca; Olhou-me, contudo, e me chegou depois de longo tempo, Quando Amarílis me tinha e Galateia me deixou.

Copiado do blog Historiante: Entre os personagens mais citados no período republicano, Tiradentes é uma espécie de símbolo libertário. Mas, quanto disso pode ser realmente factível?
No ano de 1789, um movimento importante acontecia na região das Minas Gerais, composto por uma pequena elite de Vila Rica, atual Ouro Preto, contra o domínio português. As reuniões aconteciam sempre em lugares secretos, na calada da noite, e a cada dia, contavam com um número maior de integrantes. A maioria era pertencente às classes mais ricas de lá, mas havia também quem viesse das camadas populares e, principalmente, militares de baixa patente.A revolta estava programada para o dia em que fosse anunciada a Derrama, um novo imposto cobrado para complementar os débitos que os mineradores acumulavam junto à Coroa Portuguesa. Planejavam, inclusive, executar o governador de Minas em praça pública, tomando o controle das tropas sediadas na cidade e na província.
A real intenção dos revoltosos inclusive gera, até hoje, discussões sobre a faceta do movimento. Muitos o definem como um movimento que buscava a liberdade de nosso país. Outros já falam em contornos mais regionais, atribuindo sua “quase” eclosão ao descontentamento da população de Vila Rica com o governo português. Há ainda pesquisadores que irão buscar caminhos que indicam interesses particulares como desencadeadores do movimento. Mas, todos concordam em um ponto: o movimento eclodiu diante do quadro de escassez de ouro, na região de Minas, a partir da metade final do século XVIII.
Considerada abusiva, a taxa da Derrama tinha muita rejeição por parte dos mineradores. Era uma prática opressora e injusta, onde em uma data específica divulgada pela Corte Portuguesa, soldados enviados pelas autoridades prendiam quem era contra, quem protestava ou se negava a colaboras. Sendo assim, a elite intelectual e econômica da época juntou forças para se opor à Portugal. Todos os líderes da conjuração estavam endividados com a Coroa, fato motivador para que se envolvessem numa revolta contra a Metrópole. Simbolicamente falando, a data escolhida para desencadear a revolta foi justamente a mesma em que se esperava que o governador da Capitania de Minas Gerais, o visconde de Barbacena, ordenasse a cobrança da Derrama. Talvez esperassem apoio da população à sua luta anticolonial.
No campo das ideologias, as principais influências foram as mesmas que motivaram a revolução francesa, no ano de 1789, fundamentada pelo Iluminismo, com os princípios de igualdade, fraternidade e liberdade, além dos interesses particulares, que foram muito fortes. As leis seriam reformuladas, mas a escravidão mantida, numa espécie de Iluminismo filtrado, prevalecendo elementos de interesse da elite.
Eram vários os líderes do movimento. Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto, além da figura de Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes. Mas, em relação a este último, seu papel na revolta é ainda muito discutido, talvez devido ao martírio a que foi submetido. Sua figura é lembrada como a do principal líder do movimento, algo muito questionado por diversos autores.
Mas será que Tiradentes não foi um herói inventado? A historiografia recente mostra que este homem não foi nada do que dizem ser. O nosso Tiradentes, herói nacional após a proclamação da República, era considerado um vilão até 15 de Novembro de 1889. Tiradentes provavelmente foi apenas um bode expiatório de uma revolução que estava mais preocupada com o quinto do ouro das Minas Gerais que era envias a Portugal. A clássica imagem de Tiradentes (de barba e cabelo comprido) é ilusória. Ele nunca possuiu cabelos compridos, nem barba. Seja em sua época de militar (posto que os membros do do exército devem moderar a quantidade de pelugem pelo rosto), seja em seu período na prisão (os pelos eram cortados a fim de evitar piolhos), ou mesmo no momento de sua execução (todos os condenados à forca deveriam ter a cabeça e a barba raspadas, para expor bem o rosto).
A lembrança de Tiradentes e de seu movimento se tornou importante, a ponto de receber interesse nacional, a partir da Proclamação da República. Para o historiador José Murilo de Carvalho, autor de A Formação das Almas (Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 1ª edição, 1990), “para consolidar-se como governo, a República precisava eliminar as arestas, conciliar-se com o passado monarquista, incorporar distintas vertentes do republicanismo. Tiradentes não deveria ser visto como herói republicano radical, mas sim como herói cívico religioso, como mártir, integrador, portador da imagem do povo inteiro”, alguém que fosse um líder mas de características também submissas, como exemplo ao povo. A imagem cabeluda foi construída para que ele se assemelhasse à figura de Jesus, aumentando seu tom de mártir, vítima e herói. Assim como Cristo morreu pela humanidade, ele teria morrido para salvar o Brasil. Queriam os republicanos substituir todas as figuras nacionais de relevo, obviamente monárquicas (sistema de governo utilizado pelo Brasil até 1889), por criaturas inventadas, revolucionários anarquistas, homens fictícios, verdadeiros heróis inexistentes.
Só nos últimos anos, a ideia do mito vem sendo desconstruída por alguns autores , algo que representa, de fato, um retorno aos documentos, à valorização de uma pesquisa empírica mais apurada, à busca de uma nova leitura, de aspectos ainda não tratados em fontes anteriores que, apesar de já muito utilizadas, ainda têm muito a revelar. Diz ainda José Murilo de Carvalho: “ficam claros alguns aspectos importantes na construção do perfil heróico de Tiradentes, que acaba por utilizar suas fraquezas, sua situação social inferior, e até mesmo seus supostos erros, como elementos de valorização de sua pessoa e de sua atuação”.
Embora a historiografia oficial considere a Conjuração Mineira como uma grande luta pela libertação do Brasil, o historiador inglês Kenneth Maxwell, autor de A devassa da devassa (Rio de Janeiro: Terra e Paz, 2ª ed., 1978) fala que “a conspiração dos mineiros era, basicamente, um movimento de oligarquias, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa, e que objetivava, não a independência do Brasil, mas a de Minas Gerais. Colocando também o Tiradentes bem diferente do que a história passou, um homem sem barba, sem glórias e sem liderança”.
Existe um Tiradentes sob várias faces: o mártir símbolo dos republicanos, o sacrificado como Jesus Cristo, o bode expiatório, o líder da Conjuração Mineira, o ignorante. Qual dessas seria a face verdadeira? Especulações à parte, o que importa na história da Inconfidência Mineira é que a imagem de Tiradentes enquanto herói resiste ao tempo. Mas, como a História do Brasil continua sendo escrita, qual a história que será contada, no futuro, sobre o que está ocorrendo no presente?
Afinal, o poder republicano construiu um mito fortemente solidificado, ainda nos dias atuais, sendo reproduzido em diversas circunstâncias, comparando o herói construído à imagem de Cristo, muito sustentado ainda na ignorância das massas.
Como se pode perceber, desde o enforcamento de Tiradentes, a sua imagem e a sua história foram sendo recontadas por diversos grupos. Os republicanos foram aqueles que mais se apropriaram e incorporaram em seu discurso a importância de Tiradentes na história brasileira, apontando-o como o principal responsável pela “salvação” do povo, para que nem ele e nem a república fossem esquecidos. Muito ainda há para ser abordado e discutido, e a historiografia brasileira vem se enriquecendo a cada dia com novos trabalhos e novas pesquisas, um processo ainda árduo e demorado. A constatação de elementos que têm se mantido desde o século XIX indica, por um lado, a vitalidade do mito e, por outro, o poder persuasivo das associações estabelecidas, entre o sacrifício heróico de Tiradentes e as condutas dos que se colocam como seus herdeiros: Tiradentes ficou eternizado na História.
(Texto da Prof.ª Josi Brandão, da redação d’O Historiante).

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Autor: >Lila

jornalista, vicionauta, blogueira, muito interessada em educação e comunicação [social, visual, digital] (professora, aluna, pesquisadora, mãe, filha e avó em ordem randômica de tempo, espaço e sensações )

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