Voltaire never said it!

Ia reproduzir uma frase, emblemática, sobre democracia e liberdade de expressão. Fui checar fonte e  acabei me interessando mais pela história dela. E acho que calha bem pra pensar em como as coisas funcionam no coletivo.
Ou como nos conduzimos ou nos acomodamos guiados por um ente abstrato que pode ser reconhecido como senso-comum.
A frase atribuída a Voltaire como um resumo da civilidade democrática, na verdade não foi cunhada pelo filósofo, mas foi fruto de uma biografia posterior.
Não perde o mérito a expressão, com uma força de síntese impressionante. Entretanto, me põe a pensar sobre fatos e “re-fatos” construídos e solidificados após exaustiva repetição, normalmente sem a minima análise e ponderação sobre contexto, sobre fundamentação. Penso como isso fica grave em momentos de histeria e crises, fundadas em acontecimentos ou em pseudo-eventos posteriormente fabricados, meticulosamente distorcidos ao bel prazer dos interesses que lhes davam voga. Como bem retratava Benjamin, de forma abrangente em sobre conceito de história, ou P. Nora refletindo sobre pseudos acontecimentos, ou o sábio L. Martino na ampla e cuidadosa abordagem sobre atualidade midiática, e ainda nos estudos meticulosos de W. Gomes tratando da opinião pública e da rouca voz das ruas, e de outros tantos de que me recordo nos estudos de teoria da comunicação.
No texto que acabo de ler, fala-se inclusive que a confusão involuntária chegou a ser reconhecida pela biógrafa de Voltaire de forma pública. E isso não mudou nada no coletivo maniqueísta, que insiste em lidar com mundo cheio de subjetividades em limites concretos, acentuados, resumistas, toscos desde que favoreceram está ou aquela visão.

Mas o que importa isso, né? Entre bom-senso, contrassenso, senso-comum e dissenso, me sobra a sensação de que ser manipulado (e me vem a imagem do marionete jogando xadrez , com aquelas engrenagens todas por trás dos panos) não é imposição, mas opção acatada.

Na revista Modern Language Notes, publicada pela The Johns Hopkins University Press, em sua edição de novembro de 1943, há um texto de Burdette Kinne sobre o assunto, intitulado Voltaire never said it! (“Voltaire nunca disse isso!”, tradução livre), em que consta a reprodução de uma carta de Evelyn Hall, datada de 9 de maio de 1939, em que ela afirma ser de sua própria autoria a tal frase erroneamente atribuída ao filósofo francês do século 18, chegando a apresentar desculpas por seu texto permitir a interpretação de que a fala era de Voltaire, mesmo não sendo esta sua intenção.
Ainda houve quem considerasse que Evelyn Hall teria, seja por acaso ou não, feito uma paráfrase de uma fala – esta sim – de Voltaire, menos conhecida, que se encontraria em uma carta endereçada a um certo Monsieur Le Riche, datada de 6 de fevereiro de 1770. Esse foi o caso de Norbert Guterman, editor do livro A book of french quotations (“Um livro de citações francesas”, tradução livre), publicado na década de 1960. Segundo ele e os demais defensores desta linha, haveria na referida carta a frase “Monsieur l’abbé, je déteste ce que vous écrivez, mais je donnerai ma vie pour que vous puissiez continuer à écrire” (“Senhor abade, eu detesto o que escreves, mas eu daria minha vida para que pudesses continuar a escrever”, tradução livre), uma espécie de variação daquela mais famosa.

Fonte: http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/44/a-falsa-citacao-de-voltaire-investigacao-afirma-que-a-300467-1.asp

Anúncios

Autor: >Lila

jornalista, vicionauta, blogueira, muito interessada em educação e comunicação [social, visual, digital] (professora, aluna, pesquisadora, mãe, filha e avó em ordem randômica de tempo, espaço e sensações )

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s