Por um natal sem panetone

Reflexão Pastoral é um newsmail que a UCB envia aos funcionários, resolvi reproduzir essa sobre “As origens da festa de Natal”, que traduz bem o atual espírito natalino:

Não existem documentos comprovando cientificamente que Jesus Cristo tenha nascido no dia 25 de dezembro. Existem, porém, dados arqueológicos sobre as origens da festa de Natal. Essa remonta ao período do Neolítico que começa por volta de 10.000 e se estende até 4.500 anos a.C. Neste período o ser humano se fixa na terra e, além da coleta de vegetais, passa a domesticar e criar animais (cabras e ovelhas) para a sua alimentação. Também neste período nasce e se consolida a agricultura que era formada basicamente pelo cultivo de trigo e de cevada.

No hemisfério norte do planeta os criadores de animais e agricultores adoravam o deus Sol e inventaram uma festa para celebrar o solstício de inverno. A festa tinha sentido, pois, como sabemos, a partir do solstício de inverno, o movimento da terra permite que os dias sejam mais longos e o frio menos intenso, favorecendo os plantios e uma vida mais fácil para homens e animais. Ao chegar a Roma, mais ou menos na primeira metade do século I da nossa era, os cristãos encontram essa festa. Aos poucos, na medida em que foi se fortalecendo no Império Romano, o cristianismo substitui a festa “pagã” pela invocação de Jesus Cristo, considerado pelos cristãos o Sol que ilumina toda pessoa que vem ao mundo.

Inicialmente o Natal foi apenas uma simples substituição do culto ao Sol pelo culto a Jesus Cristo. Com o passar dos tempos o cristianismo sente necessidade de celebrar o nascimento de Cristo e fixa tal comemoração no dia do solstício de inverno do hemisfério norte, quando os “pagãos” adoravam o Sol. Mais tarde, com a instituição do calendário gregoriano, essa festa é fixada no dia 25 de dezembro. A partir do século XIII, seguindo um costume iniciado por Francisco de Assis, o Natal é celebrado com a montagem de um presépio. Nesse meio tempo, com o cristianismo espalhado por praticamente toda a Europa, a festa do Natal vai se misturando com outras tradições como, por exemplo, aquela de São Nicolau, o velhinho bondoso que distribuía presentes aos necessitados, particularmente às crianças pobres. Nascia assim a lenda do Papai Noel.

Com a chegada da modernidade e do capitalismo o Natal foi sendo transformado em uma festa de consumo. A ele foram agregadas tantas coisas periféricas que o seu sentido cristão quase se perdeu por completo. Assim, em países de clima quente e tropical como o Brasil, o Natal é celebrado com “muita neve”, Papai Noel e seu trenó puxado por cervos, árvores de Natal, panetone, etc. Símbolos típicos dos países nórdicos, bem distantes da nossa realidade de clima tropical. A árvore de Natal feita de pinheiro, por exemplo, é símbolo do Natal nos países europeus porque, junto com o cipreste, é a única planta que não perde suas folhas durante o rigoroso inverno.

Creio, porém, que é hora de retomarmos o sentido original do Natal seja na perspectiva dos povos do Neolítico seja na perspectiva cristã. Como nos mostram os achados arqueológicos, por trás dos cultos neolíticos ao deus Sol estava a preocupação com a alimentação básica, com a criação de animais e a agricultura, voltadas exclusivamente para a subsistência. No cristianismo primitivo a substituição do culto ao Sol pelo culto a Jesus Cristo pretendia claramente denunciar a religião oficial do Império Romano. De fato em Roma vigorava uma religiosidade que servia de sustentação a um regime de escravidão e de exploração do ser humano. Ao apresentar no Natal a figura de um pobre menino, nascido de uma família “sem-teto”, os primeiros cristãos mandavam um recado muito claro para o Império: a salvação da humanidade está na simplicidade de vida e não na arrogância e suntuosidade de um regime que oprime e massacra os mais pobres. Não por acaso o cristianismo foi violentamente perseguido pelo Império Romano, o qual tinha como princípio tolerar as religiões dos povos subjugados, desde que essas não o ameaçassem.

A urgência de recuperação do sentido primitivo do Natal é apontada pelos inúmeros sinais tão presentes no atual contexto mundial. Cito apenas dois deles. O primeiro é o aquecimento global, provocando mudanças climáticas violentas. No pólo norte, por exemplo, as geleiras se derretem a tal ponto que o Papai Noel já não consegue mais viajar com o seu trenó! Os cervos estão em extinção e o trenó não pode mais deslizar por falta de neve! O segundo sinal é o crescimento alarmante no mundo, no Brasil e em Brasília da corrupção. E para impor a corrupção e a impunidade os corruptos utilizam todos os meios, inclusive os recursos jurídicos permitidos pelas brechas da legislação. Os próprios corruptos, para se protegerem, usam da força pública, de suas cavalarias, contra aqueles e aquelas que insistem em denunciá-los e exigir que se faça justiça.

Na época do nascimento de Jesus um rei corrupto sentindo-se ameaçado por uma criança filha de pais sem-teto, usou de toda a força de sua cavalaria para invadir Belém e matar todas as crianças com até dois anos de idade. Foi uma carnificina. Dois mil anos depois, às vésperas do Natal, a cena volta a se repetir. Uma autoridade acusada de corrupção joga seus soldados montados a cavalo contra um grupo de pessoas, espancando a uns e ferindo a outros. A única diferença: a sofisticação, ou seja, o uso de gás lacrimogêneo, de balas de borracha, de bombas de efeito moral.

Não há, pois, como não insistir na volta à originalidade do Natal. Precisamos aprender com os povos do Neolítico que a subsistência está em primeiro lugar. O luxo, a ostentação, o consumo desenfreado e o esbanjamento dos ricos estão ameaçando seriamente a vida no planeta. Urge uma vida de mais sobriedade. Urge voltar o nosso olhar para aquela criança nascida em Belém, tendo como berço uma cocheira para animais. Ela tem um recado para todos nós. Em sua pobreza e humildade nos diz ser possível viver na simplicidade, contentando-nos com o indispensável, e sermos igualmente muito felizes. Aliás, a nossa felicidade no futuro, a felicidade dos nossos netos e bisnetos vai depender da coragem que tivermos para reduzir nosso consumo desenfreado e abraçarmos a simplicidade.

Mas para isso será indispensável um Natal sem aqueles produtos de consumo que simbolizam tanto a destruição do planeta quanto a exploração dos pobres. Mais especificamente: um “Natal sem panetone”. Isso porque essa mercadoria natalina se tornou, no atual contexto, expressão concreta da farra dos corruptos feita às custas do dinheiro desviado da saúde, da alimentação, da educação e de tantos outros produtos e serviços necessários a uma vida digna para todos os seres humanos.

Portanto, um Feliz Natal, mas sem panetone!

José Lisboa Moreira de Oliveira: Licenciado em Filosofia, doutor em Teologia, gestor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília.

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Autor: >Lila

jornalista, vicionauta, blogueira, muito interessada em educação e comunicação [social, visual, digital] (professora, aluna, pesquisadora, mãe, filha e avó em ordem randômica de tempo, espaço e sensações )

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